Fazenda sequestra mais carbono do que emite? Produtor apresenta resultados de propriedade em SP

Toda fazenda emite gases de efeito estufa. Há o diesel utilizado pelas máquinas, o metano produzido pelo rebanho e as emissões associadas ao uso de fertilizantes, entre outras fontes.

Mas o que acontece quando, do outro lado dessa conta, é colocado todo o carbono retirado da atmosfera e armazenado pela propriedade?

Essa é a discussão apresentada pelo produtor rural Pelerson Penido Dalla Vecchia em artigo publicado na Globo Rural, no qual relata a experiência da Fazenda São Pedro da Mantiqueira, em Pindamonhangaba (SP).

Segundo os resultados apresentados, a propriedade alcançou um balanço negativo de gases de efeito estufa: a fazenda remove mais carbono da atmosfera do que emite.

O trabalho apresentado por Pelerson reúne dados do inventário de gases de efeito estufa da propriedade, informações sobre o fluxo de carbono ao longo do sistema produtivo e uma reflexão do próprio produtor sobre a profundidade utilizada nas medições de carbono no solo.

A conta entre o que a fazenda emite e o que remove

O balanço considera, de um lado, fontes de emissão como combustível, fermentação do rebanho, fertilizantes e energia elétrica. Do outro, considera o carbono retirado da atmosfera e armazenado, especialmente no solo.

Quando as emissões são superiores às remoções, o balanço é positivo e a propriedade atua como fonte de gases de efeito estufa. Quando ocorre o contrário, o resultado é negativo e a fazenda funciona como um sumidouro de carbono.

No caso da Fazenda São Pedro da Mantiqueira, o resultado ficou no segundo grupo.

De acordo com o artigo, o cálculo foi realizado pela pesquisadora Susian Christian Martins, mestre em ciência do solo e nutrição vegetal e doutora em ciências, seguindo o GHG Protocol Agropecuário. A verificação do balanço foi realizada de forma independente pela KPMG.

O inventário corresponde à safra 2023/2024 e considera as emissões de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O), convertidas em CO₂ equivalente.

Quanto mais específica a medição, mais detalhado o retrato da fazenda

Um dos pontos abordados no artigo é a diferença entre as metodologias utilizadas para estimar ou medir o carbono armazenado no solo.

Pelerson apresenta três abordagens.

No chamado Tier 2, são utilizados fatores nacionais padronizados, ajustados ao bioma e às condições brasileiras, sem que o carbono seja medido especificamente no solo daquela propriedade.

O Tier 3 utiliza parâmetros locais e uma modelagem mais detalhada dos estoques de carbono.

Já o chamado Tier 3 Métrico utiliza a medição direta: amostras de solo são coletadas no campo e analisadas em laboratório para determinar fisicamente o carbono presente.

Segundo o relato, à medida que os cálculos passaram de fatores genéricos para informações específicas da própria fazenda, aumentou o sequestro de carbono reconhecido no balanço.

E o carbono que passa pela fazenda todos os anos?

O artigo chama atenção ainda para outro conceito: o chamado carbono efêmero.

Nesse caso, não se trata do carbono armazenado permanentemente, mas daquele que circula pelo sistema produtivo. As plantas retiram CO₂ da atmosfera durante seu crescimento e parte desse carbono retorna posteriormente ao ambiente.

Na pecuária, por exemplo, grande parte do carbono ingerido pelo animal retorna à atmosfera pela respiração ou na forma de metano. Apenas determinadas frações permanecem armazenadas, como aquela incorporada ao tecido do animal, à biomassa de microrganismos do solo ou à parcela do esterco que efetivamente se estabiliza.

Por isso, o próprio artigo faz uma distinção importante: o carbono efêmero não integra o balanço de gases de efeito estufa verificado apresentado pelo autor e não deve ser interpretado como sequestro permanente. Ele é mostrado separadamente como uma forma de observar o fluxo anual de carbono dentro da propriedade.

A questão dos 30 centímetros

É na terceira parte do artigo que Pelerson levanta uma questão que pode ampliar a discussão sobre a mensuração de carbono em propriedades rurais.

Segundo o produtor, os inventários normalmente contabilizam o carbono do solo até 30 centímetros de profundidade. Na Fazenda São Pedro da Mantiqueira, entretanto, foram realizadas medições até 2 metros.

E os resultados apresentados chamaram a atenção.

Em um dos locais analisados, a camada situada entre 30 centímetros e 2 metros continha 330,67 toneladas de CO₂ equivalente por hectare. Nos primeiros 30 centímetros, foram encontradas 267,08 toneladas de CO₂ equivalente por hectare.

Ou seja, naquele perfil de solo analisado, havia mais carbono abaixo dos 30 centímetros do que na camada superficial considerada pelas medições convencionais apresentadas no artigo.

Isso não significa, porém, que o trabalho tenha demonstrado que todo esse carbono profundo foi acumulado em decorrência do manejo atual da fazenda.

E essa distinção é feita pelo próprio autor.

Pelerson deixa claro que essa parte do artigo é uma reflexão baseada em sua observação de campo e em sua leitura dos resultados. Ela não integra o inventário verificado e é apresentada como uma hipótese e um convite para novas investigações.

A pergunta levantada é outra: se existe uma quantidade relevante de carbono abaixo da profundidade normalmente considerada, quanto pode estar ficando de fora quando se avalia o estoque de carbono de solos tropicais profundos?

Segundo o produtor, determinar se esse carbono em profundidade também está aumentando em resposta ao manejo é justamente um próximo passo a ser investigado.

Fazenda já apresenta balanço negativo mesmo sem considerar o carbono profundo

Há um detalhe importante nessa discussão.

Segundo Pelerson, a conclusão de que a Fazenda São Pedro da Mantiqueira apresenta balanço negativo não depende da inclusão desse carbono encontrado abaixo dos 30 centímetros.

No artigo, ele afirma que, mesmo utilizando a abordagem mais conservadora apresentada e sem contabilizar o carbono profundo, a propriedade já apresenta resultado carbono-negativo.

A análise das camadas mais profundas, portanto, aparece como uma discussão adicional sobre o que pode ou não estar sendo capturado pelas metodologias de mensuração — e não como condição para que o balanço da propriedade seja negativo.

Para Pelerson, os resultados abrem espaço para investigar com mais profundidade o papel dos solos tropicais no armazenamento de carbono e até que ponto as metodologias atuais conseguem representar essa dinâmica.

Como o próprio produtor ressalta, não se trata de apresentar uma resposta definitiva, mas de colocar os dados sobre a mesa e fazer uma pergunta que ainda precisa ser investigada.

Fonte: Globo Rural.

Leia a matéria original na íntegra no site do BeefPoint.