Integração lavoura-vaca: Roncador ataca o maior gargalo da pecuária brasileira

Com práticas de manejo, integração e bem-estar animal, sistema elevou taxa de prenhez e reduziu intervalo entre partos em fazenda do grupo

Por: Rafael Gregorio
Data: 20/07/2026

PINDAMONHANGABA (SP) – O produtor normalmente é quem busca orientação na ciência. Mas ocorreu o inverso no início de julho, quando uma comitiva de membros da academia e de instituições de pesquisa visitou a fazenda São Pedro da Mantiqueira, em Pindamonhangaba (SP).

Pesquisadores e técnicos estavam lá para ouvir Pelerson Penido Dalla Vecchia, o Peleco, CEO do Grupo Roncador, falar sobre a Super Cria como ele vem chamando seu novo sistema de produção agrícola integrada com pecuária de cria.

A novidade tem melhorado índices tanto na agricultura como na pecuária. É uma “integração lavoura-vaca”, em sua divertida definição. “A cria sempre foi uma atividade de pouca rentabilidade, gradualmente empurrada para áreas menos férteis. Buscamos com esse projeto uma originação rentável, responsável e de qualidade”, diz.

O diferencial da iniciativa é que ela não mira recria ou engorda, etapas que avançaram mais rápido em produtividade. Principalmente no Mato Grosso, onde confinamentos, suplementação e integração com a produção de grãos já são relativamente comuns.

Enquanto isso, a criação de bezerros segue majoritariamente em sistemas extensivos, com menor produtividade. É a fase mais ineficiente e um gargalo no País, com uma média de prenhez de 47%.

No caso de Peleco, conhecido pelo pioneirismo na adoção em larga escala de práticas de agricultura regenerativa, a “integração lavoura-vaca” elevou a prenhez para 65%. O intervalo entre partos é de 10 a 11 meses, bem abaixo da média nacional de 18 meses.

Menos invenção, mais organização

A Super Cria não se trata tanto de invenção, mas sim de organização. O projeto reúne e sistematiza práticas de manejo, nutrição e integração lavoura-pecuária. E usa a farta base de dados coletados por Peleco, em alguns casos há décadas. “O único jeito de tomar decisões rápidas e assertivas é usar indicadores. Nada aqui vem do achismo.”

A primeira medida é uma inversão da ordem recorrente na pecuária extensiva: em vez de as matrizes percorrerem grandes áreas para colher o pasto, o alimento é, de certa forma, levado até elas. As vacas ficam soltas, acompanhadas dos bezerros, com 10 a 15 animais por hectare, superando em muito a média brasileira, de 1 a 1,5 cabeça por hectare.

A forragem é produzida e conservada perto das áreas de alimentação o chamado pré-secado e, depois, servida no cocho. Eles são móveis e devem ser realocados a cada 40 a 50 dias, seguindo um planejamento para aumentar a eficiência do pasto.

No calendário da Super Cria, a soja ocupa o solo de novembro a fevereiro. De março a maio, planta-se Brachiaria ruziziensis. Em junho e julho, o rebanho se alimenta do pré-secado. Em agosto e setembro, a nutrição é via pastejo extensivo. E outubro é o mês da rebrota, importante para reiniciar novamente o ciclo.

“O segredo da Super Cria é uma boa produção de capim”, sintetiza Peleco.

O sistema usa o esterco do gado na adubação. São quatro quilos por animal por dia, o suficiente para substituir mais de um ano do formulado, nas contas de Peleco. Ele tem construído pátios de cimento próximos dos cochos – eles quase dobram a quantidade de material obtido na comparação com a recolha direta no solo.

A lavoura recebe ainda o que ele chama de “sopa de floresta”, um substrato feito do solo da reserva florestal da fazenda, rico em nutrientes por conta da decomposição de folhas e matéria orgânica, que povoa o solo com microrganismos.

Em todas as frentes, o processo qualifica a terra. Sistemas extensivos acumulam até 5 toneladas de matéria seca por hectare. Na “mini-Roncador”, esse índice foi de quase 19 toneladas por hectare nos últimos sete anos bateu em 35,8 em 2024, o recorde.

Isso foi essencial para a fazenda, adquirida em 1998 em região de relevo acidentado – em meio às serras do Mar e da Mantiqueira – e com solo pobre em nutrientes.

“Não existe terra ruim, mas terra que pode ser arrumada com gestão. Toda agricultura deveria ter uma área de pecuária”, diz Peleco. A produtividade da fazenda na soja foi de 74 sacas por hectare nos últimos anos, ante 62 sacas no País em 2025/26.

O estoque de carbono nas áreas de Super Cria é superior até ao do solo na reserva florestal. O sistema inclui outras medidas, como seleção reprodutiva. E permite otimizar a gestão, passando a ser possível “inseminar e abater o ano inteiro”.

Réplica no Mato Grosso

A ideia de Peleco é passar a aplicar o sistema na fazenda em Querência (MT) até o fim do ano. Não será a primeira vez que a São Pedro da Mantiqueira com cerca de 3,5 mil hectares e 5,5 mil cabeças de gado, ante 53 mil hectares e 71 mil cabeças em Querência – terá servido de laboratório.

Na palestra, o CEO da Roncador foi didático e detalhista nas explicações, e disse querer que o sistema se alastre nos vizinhos.

Os visitantes – produtores, representantes da Acrimat e técnicos da Embrapa, da Famato, do Imea e do Senar-MT – saíram com o mesmo desígnio.

“Se aqui, com relevo acidentado, solo ruim, clima difícil e necessidade de drenagem ele conseguiu, lá no Mato Grosso a gente tem que ser muito incompetente para não fazer”, definiu Normando Corral, membro do Comitê Assessor Externo da Embrapa Agrossilvipastoril.
Outra dificuldade serão as onças, que eliminam cerca de 600 bezerros por ano – número que já chegou a três vezes isso no passado.

Defensor dos animais, Peleco entende que os ataques sinalizam a qualidade e o equilíbrio da biodiversidade local. A Roncador foi a primeira fazenda do País a receber o certificado do Instituto Onça Pintada, em 2018.

Leia a matéria completa em The AgriBiz:
https://www.theagribiz.com/regenera/integracao-lavoura-vaca-roncador-ataca-o-maior-gargalo-da-pecuaria-brasileira/