Como um herdeiro e ex-peão de rodeio fez da sustentabilidade um grande negócio

Localizada em Mato Grosso, a fazenda Roncador adota práticas inovadoras que conciliam preservação ambiental e aumento de produtividade, destacando-se no cenário nacional

Em um país onde a agropecuária responde pela maior parte das emissões de gases poluentes — 27,5% delas estão diretamente relacionadas à atividade e 46,3% a mudanças no uso da terra, que, em sua maioria, são feitas para dar espaço ao agronegócio —, a fazenda Roncador é um exemplo de como o Brasil pode reduzir suas emissões, aumentar a produtividade e alavancar a economia ao mesmo tempo.

Localizada na Amazônia Legal, ao lado do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, a fazenda já foi a maior do Brasil, com 152 mil hectares (o equivalente à cidade de São Paulo), e também já esteve longe de ser um exemplo de sustentabilidade. Hoje — após uma divisão entre irmãos —, soma 53 mil hectares e é uma referência para um mundo em que reduzir as emissões de gases poluentes é urgente.

Ser exemplo nessa área nunca foi o objetivo de Pelerson Penido Dalla Vecchia, o Peleco, que comanda o grupo Roncador. A meta dele era ter fazendas produtivas. Mas uma coisa levou a outra.

Neto de Pelerson Soares Penido (fundador da viação Pássaro Marrom, um dos criadores da concessionária CCR, hoje Motiva, e responsável pela compra da área da Roncador em 1978), Peleco começou a trabalhar nas fazendas da família aos 14 anos. Iniciou a faculdade de engenharia civil, mas desistiu — aos 20 anos, seu negócio era montar em touros. Abandonou os rodeios aos 27 anos, quando já havia levado uma chifrada que lhe deixou uma cicatriz no queixo.

Da faculdade de engenharia incompleta, porém, ficou sua obsessão por números. Em seu escritório — onde um violão no qual compõe músicas fica ao canto —, há uma parede coberta por papéis com mapas e indicadores de produtividade de suas fazendas.

Primeiro membro da família a ser fazendeiro oficialmente, Peleco adotou medidas, em 2002, para mudar a fazenda Roncador, que estava 80% degradada e apresentava baixa produtividade. “O pasto deveria durar dez anos, mas não durava. Aí mexemos em tudo, e começamos a medir tudo.”

Hoje, a Roncador tem 47% de sua área preservada. O restante é dividido por áreas de lavoura de soja e milho, pasto para 70 mil cabeças de gado e floresta — além de uma mini-cidade onde vivem 303 funcionários.

Para se tornar essa fazenda eficiente e com quase metade de área preservada, uma das primeiras alterações feitas por Peleco 23 anos atrás foi retirar o gado pouco produtivo e adotar inseminação artificial para ter animais mais lucrativos. Logo em seguida, ele passou a integrar lavoura e pecuária, um sistema que melhora a saúde do solo e promove a diversificação da produção, alavancando os resultados para o fazendeiro.

Hoje, além de integrar lavoura e pecuária, Peleco também integra floresta. São cerca de 50 mil mudas plantadas por ano em áreas de reflorestamento ou em áreas de produção de gado — onde as árvores fazem sombra para os animais. Na Roncador, até a alimentação do gado é pensada não só para o animal engordar mais rápido, mas para produzir um esterco de melhor qualidade para a lavoura.

Os dados minunciosamente mensurados por Peleco mostram que a produção de alimentos da Rocador mais retira gases poluentes da atmosfera do que coloca desde 2009. Apesar de a produção de gado e grãos ter passado de 9,6 mil toneladas na safra 2007/2008 para 158,7 mil tonaladas em 2019/2020 — alta de 1.553% —, as emissões líquidas de gases poluentes foram de 17,5 mil toneladas colocadas no ar para 231, 6 mil toneladas retiradas.

Para Peleco, pequenos produtores também poderiam desenvolver projetos como o dele, sustentáveis e lucrativos. Ele pondera, porém, que os pecuaristas brasileiros são carentes de gestão e suporte técnico, o que torna a atividade fraca economicamente no País.

Suporte técnico, segundo o fazendeiro, é essencial para ter sucesso. “Isso não é algo que só é possível fazer em larga escala. O pequeno também pode adotar práticas regenerativas. Cooperativas entre agricultores e pecuaristas poderiam ajudar nisso”, diz.

Experiências como a da fazenda Roncador provam ser possível aumentar a produção de gado sem desmatar. Isso porque a produtividade da pecuária brasileira é baixa. A média no País é de 1,1 unidade animal (o equivalente a 450 kg de boi vivo) por hectare. Nas áreas mais intensivas da Roncador, esse número chega a 10,5.

Para alcançar números semelhantes ao da fazenda de Peleco, um dos pontos essenciais é recuperar pastos degradados. O Brasil tem 177 milhões de hectares de pastagem. Desse total, 60% têm algum grau de degradação, ou seja, precisam passar por um trabalho de recuperação. Degradado, o pasto tem baixo nível de nutrientes e, portanto, de produtividade. Em pouco tempo, acaba sendo abandonado, e o produtor desmata novas áreas para colocar seu gado.

Já pastos bem cuidados (com análise nutricional, adubação e rotação de produção) garantem que o animal engorde mais rápido e que a vegetação retenha mais carbono através de suas raízes. Assim, a produção aumenta e a preservação ambiental também.

Quando os animais engordam mais rápido em períodos mais curtos, eles também emitem um menor volume de gases — a liberação de gases resultantes da digestão dos ruminantes, a chamada fermentação entérica, é responsável por 65% das emissões da agropecuária.

Na Roncador, um dos indicativos de que seus impactos no ambiente — e principalmente no clima — estão sendo controlados é o aumento no volume de carbono retido no solo. Por hectare, o solo da fazenda retêm 363 toneladas de carbono. Os protocolos internacionais, no entanto, consideram apenas 48% desse total, dado que esse é o volume concentrado nos 30 cm iniciais do solo.

Para que um solo retenha mais carbono, é necessário adotar justamente as medidas que Peleco tem difundido, como usar biodefensivos no lugar de defensivos tradicionais, rotacionar culturas e integrar árvores nas áreas de cultivo, entre outras.

Em uma das fazendas de Peleco no interior de São Paulo, o solo está estocando mais carbono do que áreas de floresta. Na Roncador, o fazendeiro tenta repetir esse resultado.

Veja a matéria completa no site do Estadão:

https://www.estadao.com.br/economia/como-um-herdeiro-e-ex-peao-de-rodeio-fez-da-sustentabilidade-um-grande-negocio