Cadeia produtiva da soja não para em Mato Grosso – Valor Econômico

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Com novos hábitos para evitar o coronavírus, Fazenda Roncador, de Querência, já encerrou a colheita desta safra

Por Fernando Lopes — Valor Econômico – São Paulo

09/04/2020 05h01 · Atualizado há 3 meses

Com ou sem pandemia, com ou sem tensões nas relações diplomáticas entre Brasil e China, a cadeia produtiva de soja continua pisando no acelerador. Colheita e exportações continuam a bater recordes e as perspectivas são positivas pelo menos até o segundo semestre, quando a produção americana da temporada 2020/21 entrará no mercado. E, dados os atraentes preços do grão no mercado doméstico, o cenário indica alguma sustentação às economias de polos produtores do interior, mesmo diante das incertezas.

Localizada em Querência, no nordeste de Mato Grosso, a Fazenda Roncador é um termômetro de como a marcha continua firme e que os olhares já começaram a se voltar para a próxima safra, cujo plantio terá início apenas em setembro mas que já tem boa parte da colheita prevista para o ano que vem negociada. Com 152 mil hectares no total, 76 mil deles dedicados à integração lavoura-pecuária, a fazenda colheu, em 50 mil hectares – 30 mil de gestão própria e 20 mil administrados por uma joint venture com a SLC Agrícola -, 3,2 milhões de sacas de 60 quilos de soja em 2019/20 e prevê ampliar o volume no próximo ciclo.

“Projetamos um avanço da produção sem ampliação de área, apenas com melhoramento [das sementes plantadas] e o aumento de rendimento em terras abertas há menos tempo e agora estão em melhores condições. Começamos a colheita da safra 2019/20 com 80% da produção vendida com antecipação e travamos custo e venda de cerca de 50% do volume que esperamos colher em 2020/21 para preservar margens e vamos esperar que o clima colabore”, diz Pelerson Penido Dalla Vechia, CEO do Grupo Roncador, que foi fundado em 1978 por seu avô, Pelerson Soares Penido.

Penido não dá detalhes sobre preços. Mas, em larga medida por causa da valorização do dólar em relação ao real, a saca de soja tem sido negociada por volta de R$ 85 na região de Querência, cerca de 35% mais que em abril de 2019, segundo informações do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ligado à Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato). Para analistas como Luiz Pacheco, da T&F Consultoria, os preços domésticos estão inflados, sob influência das turbulências financeiras globais – sobretudo no câmbio -, e a “bolha” deverá estourar, o que tornam mais importantes as vendas antecipadas.

No caminho de tornar as terras da Fazenda Roncador mais produtivas, o grupo conta como trunfo com duas operações de mineração de calcário, com produção conjunta estimada em 950 mil toneladas em 2020. Conhecido corretor de solo, o calcário tem feito sucesso nesses tempos em que os agricultores do Centro-Oeste estão mais capitalizados. Nesse contexto, diz Penido, as vendas para terceiros também estão fluindo bem.

Na pecuária, conta o executivo, os negócios até agora também estão estáveis. Com entre 60 mil e 70 mil cabeças de gado, a Roncador faz cria, recria e engorda e é fornecedora da JBS e do Pão de Açúcar. E, apesar de as incertezas serem maiores no mercado de carne bovina, já que a tendência é de queda do consumo doméstico, Penido afirma que não tem motivo para perder o sono, até porque travou preços para os negócios no mercado futuro. “Embora o custo da ração tenha subido [a Roncador também produz milho para consumo próprio], os pecuaristas estão melhor preparados para as turbulências, principalmente depois da forte alta do boi no ano passado”, observa.

Com suas frentes de negócios equacionadas, diz Penido, as atenções se voltam para as ações de combate ao novo coronavírus. Na Roncador e na fazenda experimental de 3,3 mil hectares do grupo em Pindamonhangaba, no interior paulista, uma série de medidas foram adotadas para evitar contaminações, como a implantação de um número maior de turnos mais curtos, a proibição de visitas, o uso de equipamentos de proteção como máscaras e luvas pelos funcionários e o afastamento dos trabalhadores que estão em grupos de risco, como os mais velhos. Tudo para manter o fluxo e tentar preservar a saúde das pessoas para os dias melhores que virão.

(Colaborou Fernanda Pressinott)

Matéria publicada no site Valor Econômico: https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2020/04/09/cadeia-produtiva-da-soja-nao-para-em-mato-grosso.ghtml